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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sobre uma possível guerra contra o Irã

Por trás dos tambores da guerra ao Irão
Armas nucleares ou juros compostos?
por Ellen Brown [*]
Em 25 de Outubro de 2007 os Estados Unidos anunciaram duras novas penalidades contra os militares iranianos e os seus sistemas bancários estatais. Sanções, retórica belicosa e a ameaça implícita da acção militar são aguilhões para outra guerra, que os críticos temem ser mais provável desencadear do que impedir um holocausto nuclear. A pergunta é: por que o Irão é considerado uma ameaça tão séria? A explicação oficial é que planeia desenvolver armas nucleares. Mas o responsável pela agência de observação das Nações Unidas, a AIEA, afirma que "não tem evidência concreta" de um programa iraniano de armamento. [1] E mesmo se houvesse um programa, alguns países testaram ou possuem armas nucleares fora do Tratado de Não Proliferação, incluindo o Paquistão, a Coreia do Norte, a Índia e provavelmente Israel, ainda que não consideremos tais terrenos para acção militar. O Irão estaria apenas a juntar-se a uma longa lista de potências nucleares. Outra teoria diz que a pressão pela guerra tem a ver totalmente com o petróleo, mas o Irão fornece apenas 15 por cento das exportações petrolíferas totais do Golfo Pérsico, e o seu petróleo já está a venda. [2] Não precisamos ir à guerra por causa dele. Podemos simplesmente comprá-lo. Uma terceira teoria diz que o tinir dos sabres tem a ver com a defesa do dólar. O Irão está a ameaçar abrir a sua própria bolsa petrolífera, e já está a vender 85 por cento do seu petróleo em divisas não-dólar. O Irão rompeu a camisa de força do petrodólar imposta na década de 1970, quando a OPEP efectuou um acordo encoberto com os Estados Unidos para vender petróleo apenas em dólares americanos. Tal como explicou o Dr. Krassimir Petrov este motivo suspeitado num editorial de 2006 em Gold-Eagle.com:
Enquanto o dólar foi o único pagamento aceitável para o petróleo, o seu domínio no mundo estava assegurado e o Império Americano podia continuar a taxar o resto do mundo. Se, por qualquer razão, o dólar perdesse o seu apoio petrolífero, o Império Americano cessaria de existir. Assim, a sobrevivência imperial ditava que o petróleo fosse vendido apenas em dólares. ... Se alguém exigisse um pagamento diferente, teria de ser convencido, tanto por pressão política como por meios militares, a mudar as suas ideias. [3]
Uma teoria interessante, mas ainda falha na explicação de todos os factos. Num editorial no Asia Times Online, William Engdahl observou que a guerra com o Irão estivera em consideração como parte da estratégia estado-unidense do Grande Médio Oriente desde a década de 1990, muito antes de o Irão ameaçar abrir a sua própria bolsa de petróleo. [4] E o irão não está sozinho ao pretender o abandono do dólar como a sua divisa para o petróleo. Para reduzir os riscos da divisa, a Rússia está a planear abrir uma Bolsa de Energia e S. Petesburgo no próximo ano a fim de comerciar petróleo em rublos, algo que terá um impacto mais significativo sobre o dólar do que a bolsa do petróleo do Irão. Os banqueiros centrais da Venezuela, Indonésia e Emirados Árabes Unidos também disseram que investirão menos das suas reservas nos activos em dólar devido ao enfraquecimento da sua posição global. [5] Quando estes países comutarem para outras divisas no seu comércio de petróleo, será que os Estados Unidos sentir-se-ão obrigados a invadi-los? Todas estas teorias têm algum mérito, mas nenhuma delas parece suficiente para explicar os tambores da guerra. O que há de tão especial quanto ao Irão? Aqui está uma outra possibilidade: O Irão apresenta uma ameaça séria não só para o petróleo e para o dólar mas também para uma arma secreta que mantém o império global da banca no poder... Juros compostos: Arma financeira de destruição em massa Cerca de 1980, quando as taxas de juro estavam a ascender, Johnny Carson satirizou em The Tonight Show que "Cientistas haviam desenvolvido uma poderosa arma nova que destrói pessoas mas deixa os edifícios intactos – ela se chama taxa de juros a 17%". Os juros compostos são a arma secreta que permitiu ao cartel bancário global controlar a maior parte dos recursos do mundo. A armadilha da dívida fechou-se para muitos países em 1980, quando as taxas internacionais de juros dispararam para 20 por cento. À taxa de 20 por cento compostos anualmente, US$100 duplica em pouco menos de 4 anos, e em 20 anos torna-se uns estarrecedores US$3,834,6. O impacto devastador sobre os devedores do Terceiro Mundo foi sublinhado pelo presidente Obasanjo da Nigéria, ao falar em 2000 acerca do crescimento do fardo do seu país em relação aos credores internacionais. Disse ele:
Tudo o que tomámos emprestado até 1985 eram cerca de US$5 mil milhões, e pagámos cerca de US$16 mil milhões, e ainda nos dizem que devemos cerca de US$28 mil milhões. Aqueles US$28 mil milhões decorreram da injustiça quanto às taxas de juro dos credores estrangeiros. Se me perguntarem o que é a pior coisa do mundo, direi que é o juro composto. [7]
O que os banqueiros chamam o "milagre" do juro composto é denominado "usura" sob a lei islâmica e é considerado um crime. Também era um crime sob o antigo Direito Inglês até o século XVI, quando Martin Luther redefiniu o crime da "usura" como a tomada do juro "excessivo". Modernos pensadores islâmicos não são avessos a um retorno lucrativo sobre o investimento quando ele assume a forma de "participação no lucro", com investidores a assumirem algum risco e a partilhares perdas no negócio, mas o usurário obtém o seu juro não importa o que aconteça. De facto, ele sai-se melhor quando o tomador falha. O tomador que não pode poupar para pagar os seus empréstimos aprofunda-se cada vez mais na dívida, pois os juros compõem-se anualmente para o que empresta. A armadilha da dívida tramada em 1980 fora preparada em 1974, quando a OPEP foi induzida a comerciar o seu petróleo apenas em dólares americanos. O preço do petróleo então quadruplicou e países com dólares insuficientes para as suas necessidades tinham de tomá-lo emprestado junto aos prestamistas internacionais. Por volta de 2001 já bastante dinheiro havia retornado dos devedores do Terceiro Mundo para os bancos do Primeiro Mundo a fim de pagar a parte principal que era devida: seis vezes os seus empréstimos originais. Mas os juros haviam consumido tanto daqueles pagamentos que a dívida total havia realmente quadruplicado. [8] Em 1980, o rendimento mediano nos 10 por cento mais ricos dos países era 77 vezes maior do que nos 10 por cento mais pobres. Em 1999 o fosso já havia crescido para 122 vezes. Em Dezembro de 2006 as Nações Unidas divulgaram um relatório intitulado "Distribuição mundial da riqueza familiar" ("World Distribution of Household Wealth"), o qual concluía que agora 50 por cento da população mundial possui apenas 1 por cento da sua riqueza, ao passo que os 10 por cento de adultos mais ricos possuem 85 por cento. Com juros compostos anuais, as dívidas dos países mais pobres nunca serão reembolsadas, apenas continuarão a crescer. O esquema da banca privada global É este esquema de dívida, com a sua arma letal do juro composto anualmente, que tem permitido a uma pequena clique de financeiros dominarem os negócios do mundo. Em Tragédia e esperança, o professor Carroll Quigley escreveu acerca do seu conhecimento pessoa desta clique financeira, a qual denominou simplesmente "os banqueiros internacionais". O dr. Quigley, que foi mentor de Bill Clinton na Georgetown University, disse que o objectivo dos banqueiros internacionais era "nada menos do que criar um controle do sistema financeiro mundial em mãos privadas capaz de dominar o sistema político de cada país e a economia do mundo como um todo", um sistema "para ser controlado de um modo feudal pelos bancos centrais do mundo a actuarem em conluio, por acordos secretos". [9] A chave para o êxito dos banqueiros era que controlariam e manipulariam os sistemas monetários do mundo permitindo que parecessem ser controlados pelos governos. A maior parte dos países foi levada a este esquema de banca privada global, com a maior parte do dinheiro do mundo a ser criado pelos bancos comerciais na forma de empréstimos produtores de juros. Nos Estados Unidos de hoje, o único dinheiro criado pelo governo consiste nas moedas, as quais representam apenas um milésimo da oferta total de dinheiro. As notas do Federal Reserve são criadas pelo Federal Reserve, uma corporação bancária privada, e emprestados ao governo. O grosso da oferta monetária, no entanto, é criado quando os bancos comerciais fazem empréstimos. Eles fazem isto pela contabilidade da dupla entrada: a soma das notas promissórias do tomador do empréstimo é simplesmente creditada como um depósito na conta do tomador e compensada com um passivo correspondente no lado do banco. [10] A criação de dinheiro agora é um assunto privado também na maior parte dos países. Mesmo onde o banco central é tecnicamente possuído pelo Estado, como no Reino Unido e no Canadá, o banco central cria apenas a divisa em papel do país, deixando a maior parte da oferta de dinheiro para ser criada pelos bancos comerciais como empréstimos com juros compostos. [11] A alternativa a este sistema de "banco central" independente é o que costumava ser chamado "banca nacional". Um banco central de propriedade do Estado emitia a divisa nacional como um agente do governo, e o governo gastava o dinheiro ou emprestava-o à actividade económica para o desenvolvimento interno e as necessidades públicas. Os ganhos (seigniorage) com a emissão deste dinheiro – a diferença entre o custo de criá-lo e o seu valor facial – era provisionado ao governo, o qual obtinha dinheiro livre de dívida e de juros. O objectivo dos banqueiros internacionais era privatizar este sistema e pô-lo sob o seu controle. O banco central ainda criaria a oferta monetária nacional, mas emprestaria o dinheiro ao governo, deixando-o com uma dívida maciça a qual devia pagar juros. Uma vez capturado na teia da dívida, o governo podia então ser induzido a privatizar outros activos, tornando-os disponíveis para compra e controle pelo capital financeiro internacional. Numa reunião em 1968 do discretíssimo grupo globalista conhecido como Bilderbergers, um responsável estado-unidense chamado George Ball falou em criar uma "companhia mundial". Ball era sub-secretário de Estado para Assuntos Económicos e administrador dos bancos gigantes Lehman Brothers e Kuhn Loeb. A "companhia mundial" deveria ser uma nova forma de colonialismo, pelo qual activos globais seriam adquiridos mais pela coerção económica do que por meios militares. A "companhia" estender-se-ia através de fronteiras nacionais, dedicando-se agressivamente a fusões e aquisições até que os activos do mundo fossem subsumidos numa corporação de propriedade privada, com Estados-nação subservientes a um sistema internacional de bancos centrais privados. [12] Antes da II Guerra Mundial, a cabeça deste sistema de banca privada global estava na Inglaterra, mas com o predomínio económico dos Estados Unidos mudou-se para a Wall Street. Com os Acordos de Bretton Woods, o dólar americano tornou-se a "divisa de reserva" do mundo, juntamente com o ouro. Em 1971, o presidente Nixon retirou o dólar do padrão ouro, e o dólar passou a ser a divisa de reserva do mundo sem aquela ancoragem. Os prestamistas americanos podiam criar e emprestar dólares em qualquer medida desde que o mundo pudesse ser induzido a tomá-los emprestados. Para assegurar que os prestamistas obtinham os seus juros, no fim da década de 1970 o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional começaram a impor "condicionalidades" sobre os empréstimos para os devedores do Terceiro Mundo, exigindo-lhes que abrissem os seus mercados de capitais, cortassem gastos com programas sociais e privatizassem as suas indústrias. Enquanto isso, ataques especulativos a divisas locais que tivessem sido deixadas a "flutuar" em mercados de câmbio estrangeiros sem a ancoragem ao ouro provocaram desvalorizações radicais de divisas, permitindo a investidores estrangeiros apanharem estes activos privatizados a preços de saldo. Quando os dominós não caem O Irão estava entre os poucos países que haviam escapado a este esquema de privatização global. O Irão tinha o seu próprio petróleo e administrava-o de forma a evitar a armadilha da desvalorização especulativa da divisa pela imposição de restrições ao câmbio estrangeiro e controles de preços sobre a sua divisa, algo que podia fazer porque tinha reservas de divisas estrangeiras adequadas para isso devido às vendas de petróleo. [13] A indústria petrolífera estatal do Irão permitia que a sua economia funcionasse bem, apesar das sanções económicas e de rumores em contrário. [14] Um movimento "reformista" a favor do aumento da privatização terminou com a eleição em 2005 do presidente Mahmoud Ahmadinejad, um "populista" que prometera redistribuir a riqueza petrolífera iraniana mais extensamente e comprometera o governo a financiar projectos do sector público e investimentos beneficentes. [15] Académicos islâmicos procuraram conceber um sistema bancário global que servisse de alternativa ao esquema baseado na usura que agora controla o mundo, e o Irão liderou o caminho para a concepção deste modelo. O Irão é caracterizado como uma república islâmica democrática, a qual aplica princípios islâmicos não só moralmente mas legal e politicamente. O Xá do Irão apoiado pelos EUA foi derrubado em 1979, findando 2500 anos de domínio monárquico. Todos os bancos internos iranianos foram então nacionalizados, e o governo conclamou-os a estabelecer um sistema bancário islâmico que substituísse o pagamento de juros pela partilha de lucros. O banco central de propriedade do Estado iraniano emite a divisa nacional, com a seigniorage a beneficiar o governo ao invés dos bancos privados. [16] O governo iraniano está entre os poucos a terem uma dívida externa muito pequena. Ele utiliza os seus bancos estatais para fazer com que os empréstimos e créditos fiquem disponíveis para projectos industriais e agrícolas. A característica única e mais distintiva do sistema bancário iraniano, no entanto, é que ele segue a prescrição islâmica contra a usura. Isto significa que os empréstimos são feitos sem juros. [17] Isto é verdade pelo menos em princípio. Para fazer o seu sistema funcionar com o esquema prevalecente, economistas islâmicos tiveram de produzir algumas definições criativas de "juro". Assumir que o Irão pode desenvolver um modelo alternativo que funciona pode, contudo, ameaçar o sistema bancário baseado na usura que agora domina as finanças e o comércio internacional. Se os governos começassem a fazer o que os bancos agora fazem – avançar "crédito" criado do nada por meio de lançamentos na contabilidade – eles poderiam esquivar-se aos juros pesados que são o custo principal da maior parte dos programas governamentais de hoje. Foi estimado que eliminar encargos de juros poderia cortar os custos médios de infraestrutura, desenvolvimento energético sustentável e outros programas pela metade. [18] As economias do Terceiro Mundo poderiam finalmente escapar ao domínio férreo dos banqueiros internacionais, levando ao afundamento de um império bancário global com 300 anos de idade. A dimensão das apostas foi sugerida por Tarek El Diwany, um perito britânico em finanças islâmicas e autor de The Problem with Interest (2003). Numa apresentação na Universidade de Cambridge em 2002 ele citou um relatório de 1997 das Nações Unidas sobre desenvolvimento humano, o qual dizia:
Aliviados dos seus reembolsos anuais da dívida, os países severamente endividados poderia utilizar fundos investimento que só na África poupariam as vidas de cerca de 21 milhões de crianças em 2000 e proporcionariam o acesso à educação básica a 90 milhões de meninas e mulheres.
El Diwany comentava: "O PNUD não diz que os banqueiros estão a matar as crianças, ele diz que é a dívida que está. Mas quem está a criar a dívida? Os banqueiros, naturalmente. E eles estão a criar a dívida pelo empréstimo do dinheiro que fabricaram a partir do nada. Em retorno, o mundo em desenvolvimento paga ao mundo desenvolvido US$700 milhões líquidos por dia em reembolsos de dívida". Ele concluía a sua apresentação assim:
Mas há esperança. Os países em desenvolvimento não deveriam pensar que são impotentes face aos seus opressores. A sua melhor arma agora é a própria escala da crise da dívida. Um incumprimento coordenado e simultâneo em grande escala das obrigações da dívida internacional poderia bastante facilmente danificar o sistema monetário ocidental, e o Ocidente sabe disso. Pode haver uma guerra naturalmente, ou a ameaça dela, talvez acompanhada por lições sobre moralidade financeira da parte de Washington, mas será que isso importa quando há tão pouco a perder? Na altura devida, todos os povos oprimidos virão a saber que é melhor morrer com dignidade do que viver na escravidão. Os prestamistas de toda a parte deveriam recordar bem esta lição. [19]
Isto podia explicar o grande armamento apontado ao Irão, e o endurecimento de sanções económicas contra o país. Dominós que não cairão dentro da armadilha da dívida devem ser empurrados. Tal como nos brutais ataques no Líbano em Julho de 2006, os objectivos militares no Irão são provavelmente económicos – portos, pontes, estradas, aeroportos, infraestrutura de refinação. [20] A ameaça colocada pelo modelo económico alternativo do Irão será aniquilada lançando-o de volta à Idade da Pedra. [*] Procuradora do Ministério Publico em Los Angeles, EUA, autora de A teia da dívida (Web of Debt) , em que mostra como o cartel privado do Federal Reserve usurpou o poder de criar moeda e como o povo pode recuperá-lo.
Por trás dos tambores da guerra ao Irão
Armas nucleares ou juros compostos?
por Ellen Brown [*]
Em 25 de Outubro de 2007 os Estados Unidos anunciaram duras novas penalidades contra os militares iranianos e os seus sistemas bancários estatais. Sanções, retórica belicosa e a ameaça implícita da acção militar são aguilhões para outra guerra, que os críticos temem ser mais provável desencadear do que impedir um holocausto nuclear. A pergunta é: por que o Irão é considerado uma ameaça tão séria? A explicação oficial é que planeia desenvolver armas nucleares. Mas o responsável pela agência de observação das Nações Unidas, a AIEA, afirma que "não tem evidência concreta" de um programa iraniano de armamento. [1] E mesmo se houvesse um programa, alguns países testaram ou possuem armas nucleares fora do Tratado de Não Proliferação, incluindo o Paquistão, a Coreia do Norte, a Índia e provavelmente Israel, ainda que não consideremos tais terrenos para acção militar. O Irão estaria apenas a juntar-se a uma longa lista de potências nucleares. Outra teoria diz que a pressão pela guerra tem a ver totalmente com o petróleo, mas o Irão fornece apenas 15 por cento das exportações petrolíferas totais do Golfo Pérsico, e o seu petróleo já está a venda. [2] Não precisamos ir à guerra por causa dele. Podemos simplesmente comprá-lo. Uma terceira teoria diz que o tinir dos sabres tem a ver com a defesa do dólar. O Irão está a ameaçar abrir a sua própria bolsa petrolífera, e já está a vender 85 por cento do seu petróleo em divisas não-dólar. O Irão rompeu a camisa de força do petrodólar imposta na década de 1970, quando a OPEP efectuou um acordo encoberto com os Estados Unidos para vender petróleo apenas em dólares americanos. Tal como explicou o Dr. Krassimir Petrov este motivo suspeitado num editorial de 2006 em Gold-Eagle.com:
Enquanto o dólar foi o único pagamento aceitável para o petróleo, o seu domínio no mundo estava assegurado e o Império Americano podia continuar a taxar o resto do mundo. Se, por qualquer razão, o dólar perdesse o seu apoio petrolífero, o Império Americano cessaria de existir. Assim, a sobrevivência imperial ditava que o petróleo fosse vendido apenas em dólares. ... Se alguém exigisse um pagamento diferente, teria de ser convencido, tanto por pressão política como por meios militares, a mudar as suas ideias. [3]
Uma teoria interessante, mas ainda falha na explicação de todos os factos. Num editorial no Asia Times Online, William Engdahl observou que a guerra com o Irão estivera em consideração como parte da estratégia estado-unidense do Grande Médio Oriente desde a década de 1990, muito antes de o Irão ameaçar abrir a sua própria bolsa de petróleo. [4] E o irão não está sozinho ao pretender o abandono do dólar como a sua divisa para o petróleo. Para reduzir os riscos da divisa, a Rússia está a planear abrir uma Bolsa de Energia e S. Petesburgo no próximo ano a fim de comerciar petróleo em rublos, algo que terá um impacto mais significativo sobre o dólar do que a bolsa do petróleo do Irão. Os banqueiros centrais da Venezuela, Indonésia e Emirados Árabes Unidos também disseram que investirão menos das suas reservas nos activos em dólar devido ao enfraquecimento da sua posição global. [5] Quando estes países comutarem para outras divisas no seu comércio de petróleo, será que os Estados Unidos sentir-se-ão obrigados a invadi-los? Todas estas teorias têm algum mérito, mas nenhuma delas parece suficiente para explicar os tambores da guerra. O que há de tão especial quanto ao Irão? Aqui está uma outra possibilidade: O Irão apresenta uma ameaça séria não só para o petróleo e para o dólar mas também para uma arma secreta que mantém o império global da banca no poder... Juros compostos: Arma financeira de destruição em massa Cerca de 1980, quando as taxas de juro estavam a ascender, Johnny Carson satirizou em The Tonight Show que "Cientistas haviam desenvolvido uma poderosa arma nova que destrói pessoas mas deixa os edifícios intactos – ela se chama taxa de juros a 17%". Os juros compostos são a arma secreta que permitiu ao cartel bancário global controlar a maior parte dos recursos do mundo. A armadilha da dívida fechou-se para muitos países em 1980, quando as taxas internacionais de juros dispararam para 20 por cento. À taxa de 20 por cento compostos anualmente, US$100 duplica em pouco menos de 4 anos, e em 20 anos torna-se uns estarrecedores US$3,834,6. O impacto devastador sobre os devedores do Terceiro Mundo foi sublinhado pelo presidente Obasanjo da Nigéria, ao falar em 2000 acerca do crescimento do fardo do seu país em relação aos credores internacionais. Disse ele:
Tudo o que tomámos emprestado até 1985 eram cerca de US$5 mil milhões, e pagámos cerca de US$16 mil milhões, e ainda nos dizem que devemos cerca de US$28 mil milhões. Aqueles US$28 mil milhões decorreram da injustiça quanto às taxas de juro dos credores estrangeiros. Se me perguntarem o que é a pior coisa do mundo, direi que é o juro composto. [7]
O que os banqueiros chamam o "milagre" do juro composto é denominado "usura" sob a lei islâmica e é considerado um crime. Também era um crime sob o antigo Direito Inglês até o século XVI, quando Martin Luther redefiniu o crime da "usura" como a tomada do juro "excessivo". Modernos pensadores islâmicos não são avessos a um retorno lucrativo sobre o investimento quando ele assume a forma de "participação no lucro", com investidores a assumirem algum risco e a partilhares perdas no negócio, mas o usurário obtém o seu juro não importa o que aconteça. De facto, ele sai-se melhor quando o tomador falha. O tomador que não pode poupar para pagar os seus empréstimos aprofunda-se cada vez mais na dívida, pois os juros compõem-se anualmente para o que empresta. A armadilha da dívida tramada em 1980 fora preparada em 1974, quando a OPEP foi induzida a comerciar o seu petróleo apenas em dólares americanos. O preço do petróleo então quadruplicou e países com dólares insuficientes para as suas necessidades tinham de tomá-lo emprestado junto aos prestamistas internacionais. Por volta de 2001 já bastante dinheiro havia retornado dos devedores do Terceiro Mundo para os bancos do Primeiro Mundo a fim de pagar a parte principal que era devida: seis vezes os seus empréstimos originais. Mas os juros haviam consumido tanto daqueles pagamentos que a dívida total havia realmente quadruplicado. [8] Em 1980, o rendimento mediano nos 10 por cento mais ricos dos países era 77 vezes maior do que nos 10 por cento mais pobres. Em 1999 o fosso já havia crescido para 122 vezes. Em Dezembro de 2006 as Nações Unidas divulgaram um relatório intitulado "Distribuição mundial da riqueza familiar" ("World Distribution of Household Wealth"), o qual concluía que agora 50 por cento da população mundial possui apenas 1 por cento da sua riqueza, ao passo que os 10 por cento de adultos mais ricos possuem 85 por cento. Com juros compostos anuais, as dívidas dos países mais pobres nunca serão reembolsadas, apenas continuarão a crescer. O esquema da banca privada global É este esquema de dívida, com a sua arma letal do juro composto anualmente, que tem permitido a uma pequena clique de financeiros dominarem os negócios do mundo. Em Tragédia e esperança, o professor Carroll Quigley escreveu acerca do seu conhecimento pessoa desta clique financeira, a qual denominou simplesmente "os banqueiros internacionais". O dr. Quigley, que foi mentor de Bill Clinton na Georgetown University, disse que o objectivo dos banqueiros internacionais era "nada menos do que criar um controle do sistema financeiro mundial em mãos privadas capaz de dominar o sistema político de cada país e a economia do mundo como um todo", um sistema "para ser controlado de um modo feudal pelos bancos centrais do mundo a actuarem em conluio, por acordos secretos". [9] A chave para o êxito dos banqueiros era que controlariam e manipulariam os sistemas monetários do mundo permitindo que parecessem ser controlados pelos governos. A maior parte dos países foi levada a este esquema de banca privada global, com a maior parte do dinheiro do mundo a ser criado pelos bancos comerciais na forma de empréstimos produtores de juros. Nos Estados Unidos de hoje, o único dinheiro criado pelo governo consiste nas moedas, as quais representam apenas um milésimo da oferta total de dinheiro. As notas do Federal Reserve são criadas pelo Federal Reserve, uma corporação bancária privada, e emprestados ao governo. O grosso da oferta monetária, no entanto, é criado quando os bancos comerciais fazem empréstimos. Eles fazem isto pela contabilidade da dupla entrada: a soma das notas promissórias do tomador do empréstimo é simplesmente creditada como um depósito na conta do tomador e compensada com um passivo correspondente no lado do banco. [10] A criação de dinheiro agora é um assunto privado também na maior parte dos países. Mesmo onde o banco central é tecnicamente possuído pelo Estado, como no Reino Unido e no Canadá, o banco central cria apenas a divisa em papel do país, deixando a maior parte da oferta de dinheiro para ser criada pelos bancos comerciais como empréstimos com juros compostos. [11] A alternativa a este sistema de "banco central" independente é o que costumava ser chamado "banca nacional". Um banco central de propriedade do Estado emitia a divisa nacional como um agente do governo, e o governo gastava o dinheiro ou emprestava-o à actividade económica para o desenvolvimento interno e as necessidades públicas. Os ganhos (seigniorage) com a emissão deste dinheiro – a diferença entre o custo de criá-lo e o seu valor facial – era provisionado ao governo, o qual obtinha dinheiro livre de dívida e de juros. O objectivo dos banqueiros internacionais era privatizar este sistema e pô-lo sob o seu controle. O banco central ainda criaria a oferta monetária nacional, mas emprestaria o dinheiro ao governo, deixando-o com uma dívida maciça a qual devia pagar juros. Uma vez capturado na teia da dívida, o governo podia então ser induzido a privatizar outros activos, tornando-os disponíveis para compra e controle pelo capital financeiro internacional. Numa reunião em 1968 do discretíssimo grupo globalista conhecido como Bilderbergers, um responsável estado-unidense chamado George Ball falou em criar uma "companhia mundial". Ball era sub-secretário de Estado para Assuntos Económicos e administrador dos bancos gigantes Lehman Brothers e Kuhn Loeb. A "companhia mundial" deveria ser uma nova forma de colonialismo, pelo qual activos globais seriam adquiridos mais pela coerção económica do que por meios militares. A "companhia" estender-se-ia através de fronteiras nacionais, dedicando-se agressivamente a fusões e aquisições até que os activos do mundo fossem subsumidos numa corporação de propriedade privada, com Estados-nação subservientes a um sistema internacional de bancos centrais privados. [12] Antes da II Guerra Mundial, a cabeça deste sistema de banca privada global estava na Inglaterra, mas com o predomínio económico dos Estados Unidos mudou-se para a Wall Street. Com os Acordos de Bretton Woods, o dólar americano tornou-se a "divisa de reserva" do mundo, juntamente com o ouro. Em 1971, o presidente Nixon retirou o dólar do padrão ouro, e o dólar passou a ser a divisa de reserva do mundo sem aquela ancoragem. Os prestamistas americanos podiam criar e emprestar dólares em qualquer medida desde que o mundo pudesse ser induzido a tomá-los emprestados. Para assegurar que os prestamistas obtinham os seus juros, no fim da década de 1970 o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional começaram a impor "condicionalidades" sobre os empréstimos para os devedores do Terceiro Mundo, exigindo-lhes que abrissem os seus mercados de capitais, cortassem gastos com programas sociais e privatizassem as suas indústrias. Enquanto isso, ataques especulativos a divisas locais que tivessem sido deixadas a "flutuar" em mercados de câmbio estrangeiros sem a ancoragem ao ouro provocaram desvalorizações radicais de divisas, permitindo a investidores estrangeiros apanharem estes activos privatizados a preços de saldo. Quando os dominós não caem O Irão estava entre os poucos países que haviam escapado a este esquema de privatização global. O Irão tinha o seu próprio petróleo e administrava-o de forma a evitar a armadilha da desvalorização especulativa da divisa pela imposição de restrições ao câmbio estrangeiro e controles de preços sobre a sua divisa, algo que podia fazer porque tinha reservas de divisas estrangeiras adequadas para isso devido às vendas de petróleo. [13] A indústria petrolífera estatal do Irão permitia que a sua economia funcionasse bem, apesar das sanções económicas e de rumores em contrário. [14] Um movimento "reformista" a favor do aumento da privatização terminou com a eleição em 2005 do presidente Mahmoud Ahmadinejad, um "populista" que prometera redistribuir a riqueza petrolífera iraniana mais extensamente e comprometera o governo a financiar projectos do sector público e investimentos beneficentes. [15] Académicos islâmicos procuraram conceber um sistema bancário global que servisse de alternativa ao esquema baseado na usura que agora controla o mundo, e o Irão liderou o caminho para a concepção deste modelo. O Irão é caracterizado como uma república islâmica democrática, a qual aplica princípios islâmicos não só moralmente mas legal e politicamente. O Xá do Irão apoiado pelos EUA foi derrubado em 1979, findando 2500 anos de domínio monárquico. Todos os bancos internos iranianos foram então nacionalizados, e o governo conclamou-os a estabelecer um sistema bancário islâmico que substituísse o pagamento de juros pela partilha de lucros. O banco central de propriedade do Estado iraniano emite a divisa nacional, com a seigniorage a beneficiar o governo ao invés dos bancos privados. [16] O governo iraniano está entre os poucos a terem uma dívida externa muito pequena. Ele utiliza os seus bancos estatais para fazer com que os empréstimos e créditos fiquem disponíveis para projectos industriais e agrícolas. A característica única e mais distintiva do sistema bancário iraniano, no entanto, é que ele segue a prescrição islâmica contra a usura. Isto significa que os empréstimos são feitos sem juros. [17] Isto é verdade pelo menos em princípio. Para fazer o seu sistema funcionar com o esquema prevalecente, economistas islâmicos tiveram de produzir algumas definições criativas de "juro". Assumir que o Irão pode desenvolver um modelo alternativo que funciona pode, contudo, ameaçar o sistema bancário baseado na usura que agora domina as finanças e o comércio internacional. Se os governos começassem a fazer o que os bancos agora fazem – avançar "crédito" criado do nada por meio de lançamentos na contabilidade – eles poderiam esquivar-se aos juros pesados que são o custo principal da maior parte dos programas governamentais de hoje. Foi estimado que eliminar encargos de juros poderia cortar os custos médios de infraestrutura, desenvolvimento energético sustentável e outros programas pela metade. [18] As economias do Terceiro Mundo poderiam finalmente escapar ao domínio férreo dos banqueiros internacionais, levando ao afundamento de um império bancário global com 300 anos de idade. A dimensão das apostas foi sugerida por Tarek El Diwany, um perito britânico em finanças islâmicas e autor de The Problem with Interest (2003). Numa apresentação na Universidade de Cambridge em 2002 ele citou um relatório de 1997 das Nações Unidas sobre desenvolvimento humano, o qual dizia:
Aliviados dos seus reembolsos anuais da dívida, os países severamente endividados poderia utilizar fundos investimento que só na África poupariam as vidas de cerca de 21 milhões de crianças em 2000 e proporcionariam o acesso à educação básica a 90 milhões de meninas e mulheres.
El Diwany comentava: "O PNUD não diz que os banqueiros estão a matar as crianças, ele diz que é a dívida que está. Mas quem está a criar a dívida? Os banqueiros, naturalmente. E eles estão a criar a dívida pelo empréstimo do dinheiro que fabricaram a partir do nada. Em retorno, o mundo em desenvolvimento paga ao mundo desenvolvido US$700 milhões líquidos por dia em reembolsos de dívida". Ele concluía a sua apresentação assim:
Mas há esperança. Os países em desenvolvimento não deveriam pensar que são impotentes face aos seus opressores. A sua melhor arma agora é a própria escala da crise da dívida. Um incumprimento coordenado e simultâneo em grande escala das obrigações da dívida internacional poderia bastante facilmente danificar o sistema monetário ocidental, e o Ocidente sabe disso. Pode haver uma guerra naturalmente, ou a ameaça dela, talvez acompanhada por lições sobre moralidade financeira da parte de Washington, mas será que isso importa quando há tão pouco a perder? Na altura devida, todos os povos oprimidos virão a saber que é melhor morrer com dignidade do que viver na escravidão. Os prestamistas de toda a parte deveriam recordar bem esta lição. [19]
Isto podia explicar o grande armamento apontado ao Irão, e o endurecimento de sanções económicas contra o país. Dominós que não cairão dentro da armadilha da dívida devem ser empurrados. Tal como nos brutais ataques no Líbano em Julho de 2006, os objectivos militares no Irão são provavelmente económicos – portos, pontes, estradas, aeroportos, infraestrutura de refinação. [20] A ameaça colocada pelo modelo económico alternativo do Irão será aniquilada lançando-o de volta à Idade da Pedra. [*] Procuradora do Ministério Publico em Los Angeles, EUA, autora de A teia da dívida (Web of Debt) , em que mostra como o cartel privado do Federal Reserve usurpou o poder de criar moeda e como o povo pode recuperá-lo.
É indispensável um curso de educação sobre os media
por Michel Collon [*] entrevistado por Grégoire Lalieu [**]
Pensa que seria necessário ministrar nas escolas um curso de educação sobre o media? Acho que seria indispensável pois os media nos manipulam todos os dias. Eles omitem uma grande parte da realidade. Cada guerra é económica. Quando se ataca o Afeganistão ou o Iraque é para que as multinacionais se apossem das suas riquezas ou das suas posições estratégicas. E cada guerra é acompanhada por uma guerra da informação que manipula a opinião pública com o que chamo de "media-mentiras". Seria preciso portanto que os jovens fossem vacinados contra este género de práticas, que eles pudessem compreender porque e como a informação é manipulada. Como as multinacionais exercem pressão sobre os media? Os grandes media têm orçamentos publicitários indispensáveis ao seu financiamento. Eles não podem portanto ir contra os interesses das multinacionais que fornecem esta publicidade, como as empresas petrolíferas ou automobilísticas. Estas multinacionais dão golpes sujos no Terceiro Mundo mas um media não tem o direito de falar nisso sob pena de perder uma parte importante das receitas geradas pela publicidade. A maior parte dos media pertence a grandes grupos financeiros. Isso tem influência sobre a liberdade de expressão? Evidentemente. Para possuir uma cadeia de televisão hoje é preciso ser multi-milionário. Pense em Berlusconi ou em Rupert Murdoch. Será que um muito-milionário vai informar os pobres de modo objectivo? Nada menos certo! Quanto uma multinacional quer fazer mão baixa sobre as riquezas minerais do Congo ou sobre o petróleo do Médio Oriente ou da Venezuela ela entra em conflito de interesses com a população destes países que desejaria que o dinheiro destas riquezas não partisse para o estrangeiro e ficasse ali para assegurar cuidados de saúde e educação a toda a gente. Portanto, quando deparamos com um conflito é preciso verificar se nos apresentam as versões das duas partes. E muito frequentemente não temos senão o ponto de vista das multinacionais, possuidoras dos media ou que fazem os media viver graças ao orçamento publicitário. Concretamente, como poderia decorrer o curso de educação dos media? É preciso distinguir entre um verdadeiro curso de educação dos media e o que se faz agora, que tem mais a ver mais com campanhas comerciais para que os jovens se tornem clientes perpétuos de tal ou tal media. Este curso deveria permitir aprender a analisar as imagens, criticar a informação e ir procurar alhures o que não é dito. Muito frequentemente, os media não dizem senão uma parte da realidade e escondem elementos essenciais. Este curso deveria igualmente ser interactivo e provocar a participação dos jovens, que seriam levados a reagir e a reflectir sobre estas imagens, a perguntar-se se elas são verdadeiras ou falsas, quem poderia manipular e porque... Uma outra actividade divertida que experimentei consiste em dividir a turma em dois países inimigos. O Iraque e os Estados Unidos por exemplo. E cada grupo deve fazer o seu próprio telejornal destinado a servir os seus próprios interesses. É uma maneira lúdica de apreender as engrenagens da manipulação da informação. Pensa que os media exercem influência sobre os jovens? Certamente, ainda que os jovens não sigam forçosamente o jornal da televisão. Os media hoje fazem tudo para investir na Net e recapturar este público jovem. Por outro lado, a manipulação mediática não se faz unicamente através dos telejornais ou dos jornais diários. É preciso saber que após os atentados do 11 de Setembro, reuniram-se a Casa Branca, o Pentágono e as grandes companhias de Hollywood. Estava em causa melhorar a comunicação de George W. Bush e definir os países inimigos dos quais se iria dizer mal nas grandes produções cinematográficas. As ideias das multinacionais e do governo americano são igualmente veiculadas pelos filmes e pelas novelas que condicionam a opinião pública. Numa série policial, o terrorista malfeitor nunca é norte-americano, quando na verdade é o governo dos Estados Unidos que comete mais actos de terror e crimes de guerra por todo o mundo. Os filmes, as novelas da televisão e mesmo a publicidade veiculam toda uma série de valores que condicionam o pensamento. E são ainda mais perigosos do que um jornal de informação na medida em que são muito mais insidiosos. A série '24 heures chrono', muito bem feita e palpitante, serve para justificar a tortura praticada pelos serviços estado-unidenses. Hoje, concretamente, o que é que um jovem pode fazer para se informar bem? A Internet oferece numerosas possibilidade para escapar ao monopólio das grandes televisões. Eu aconselho a olhar num mesmo dia os telejornais das diferentes cadeias a fim de constatar que todos eles dizem as mesmas coisas e que escondem as mesmas coisas. É preciso portanto procurar alhures aquilo que não se encontra nos grandes media. É o que tento desenvolver com o meu sítio na Internet no qual divulgo artigos independentes vindos do mundo inteiro. Penso que e preciso encorajar os jovens a procurar informação desta maneira. Há vários anos que o governo da comunidade francesa (da Bélgica) fala de um curso de educação dos media mas este projecto ainda não viu a luz. Sabe porque? Não. Em todo o caso, um jornal da televisão não se avalia como uma pizza, é preciso reflectir no que ele tem por trás. As autoridades não desejam entrar em conflito com as multinacionais. Mas se não se fizer a educação dos media de maneira crítica, dando a palavra àqueles que não estão de acordo com o domínio das multinacionais sobre a informação, então não será possível realmente falar de educação. Será apenas formatação. Que interesse vê no encontro com jovens? Já encontrei todas as espécies de público, nomeadamente nas escolas, e os jovens são muitas vezes mais abertos, mais curiosos, mais indignados quando constatam mentiras e injustiças. Escrevi um livro sobre a educação dos media, 'Attention, médias!' publicado em 1991. Preparo agora uma nova obra, um manual dos media, que será muito concreto e prático. O objectivo é que possa ser utilizado por professores, jovens, animadores, para desenvolver um sentido crítico dos media. Para mim, o público jovem é realmente um público prioritário.
20/Outubro/2007
[*] Autor de Monopoly, l'OTAN à la conquête du monde e de Bush : Le cyclone [**] Do Centre des Jeunes Indigo de La Louvière (Bélgica)